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O Silêncio que Mata

Na década de 80,90 a Aids era assunto primordial. A imprensa dava enfoque a fatos relacionados à nova síndrome. Pessoas discutiam a gravidade da doença e suas seqüelas. Falavam também da importância da educação sexual e a prevenção nas relações sexuais. Hoje, o panorama comunicacional que envolve a doença é bem diferente. Parece que a Aids não existe, ou tornou-se corriqueira e não é um problema grave de saúde pública.

Sem uma campanha incisiva que abranja todo território brasileiro, fica quase que impossível mostrar as conseqüências advindas do contagio pelo vírus HIV, bem como a realidade do soropositivo. Grande parte da população acredita que basta ingerir “um remedinho” que tudo estará bem. Eles desconhecem os efeitos colaterais provocados pelos medicamentos que combatem o vírus no organismo, e a própria doença.

O que causa arrepios e saber que os novos casos de aids atinge diretamente jovens do sexo feminino (entre 15 a 25 anos). Em 86 eram 36 homens para cada mulher, hoje, a AIDS se feminalizou, e a proporção é de um homem para cada mulher.

A AIDS ronda nossas vidas! Cinco milhões de pessoas no mundo são contaminadas por ano, e 20% delas são vítimas fatais da doença. Os números falam por si. Por mais que haja engajamento para novas tecnologias, a cura está longe, muito longe.

É preciso persistir na prevenção – investir em campanhas diárias e

incentivar o esforço contínuo para não retroceder e perder as conquistas duramente alcançadas.

É imprescindível conscientizar a população sexualmente ativa de que é primordial o uso do preservativo nas relações sexuais, independente do sexo ou idade, e você que não vivenciou a devastação e o horror que a adis trouxe nas décadas de 80/90 não engrosse os números das estáticas desta doença.

O cuidado com a saúde faz parte da cidadania plena. Cada pessoa é responsável por sua sexualidade, e o que faz com ela. Atrelado a estes conceitos esta o papel da imprensa em difundir a realidade da AIDS, colaborando para uma visão ampla e irrestrita sobre uma doença que não tem cura, traz seqüelas irreversíveis, e mata!

O que vemos nos meios de comunicação são campanhas tímidas destinadas ao dia 1º de dezembro – Dia Mundial de Luta Contra Aids, e não uma campanha continua, esclarecedora e real. O tema abordado em 2008 foi direcionado para pessoas acima dos 60, provando que sexo é inerente a biologia do ser humano, e que, a modernidade reforça essa idéia através de reposições hormonais e dos inúmeros medicamentos que mantém a sexualidade ativa de quem chegou a 3ª idade.

A mídia pode até permanecer calada, mas, enquanto fundadora e presidente de uma ONG (Associação dos Irmãos da Solidariedade) que há 22 anos desenvolve ações que ajudam a resgatar vidas de pessoas que chegam à instituição morrendo de fome e sem existir juridicamente, posso explanar com veracidade que a falta de campanhas diárias e incisivas colaboram de certa forma para a proliferação do vírus entre a população sexualmente ativa, deixando no esquecimento problemas sociais graves e muitas vezes irreversíveis em relação a Aids e a vida do portador.

Espero, sinceramente, que o laço vermelho (símbolo universal da luta contar a adis) não se torne um adereço, e sim, ferramenta capaz de minimizar e abrir novos caminhos contra esta pandemia. Aos idealizadores a minha admiração, e que eles sirvam de exemplos a incentivar profissionais e novos militantes que atuem com humanidade em prol do portador de HIV. Afinal, a Aids é uma doença que pertence a todos nós que somos “responsáveis” diretos ou indiretamente para disseminação ou redução de uma síndrome que requer responsabilidade e união!

É hora de colocar as idéias em práticas e deixar pra traz aquela história de só fazer campanhas em datas espaciais como Carnaval, 1° de Dezembro etc. Até por que o silêncio da mídia também mata!

Fátima Castro